sábado, 5 de dezembro de 2009

Não é mole não!


Mamãe viajou e eu estou sozinha em casa. Com tal afirmação posso ouvir de alguns comparsas a expressão '' a casa tá liberada! Festa!" e realmente seria bom DEMAIS se fosse só assim...
Eu,que nada faço a não ser o ócio produtivo de idéias introspectivas livros/música/filmes/internet,me vi sendo "A diarista" hoje,em especial.
Acordei cedo e esquentei o café, que não foi feito por mim mas pela hóspede que não me deixou dormir sozinha ontem porque confesso,morro de medo de ladrões!Esquentei o café,o pão e a louça ficou suja pra mim ¬¬'
Saí pra fazer a tal prova do ENEM que sinceramente foi só 'gracejo' da minha parte porque sei que vou continuar nas minhas ciencias sociais mesmo! Mas eu até vou gostar se meus pontos me levaraem a fazer cinema ou fotografia lá em sampa(duvido muito).
Ao chegar,encontrei tudo junto me esperando: a casa empoeirada,os baldes secos(pq aqui no bairro há o tal racionamento de água),a louça do café,mais a louça do almoço e minhas roupas sujas!
Cade a mamãe pra me socorreeeeeer? -foi o que pensei-aliás tudo isso está acontecendo porque a secretária do lar daqui resolveu tirar recesso junto com mamãe! Vai entender,deve ser teoria da conspiração!
E lá fui eu, ao som de Smiths e Kills, eu fui lá, fazer jus ao 'minha nada mole vida'
Lavei a louça toda,ensaboei os copos,limpei as panelas,enchi os litros da geladeira.
Eu só ficava imaginando como seria se fosse assim todo dia. E pior[na verdade melhor] e que daqui a pouco tempo,será assim.
Depois veio a pior parte: Lavar as roupas! aaah como eu odeio lavar roupas! Aqui em casa a máquina de lavar pigfou faz uns meses e mamãe nunca levou pro conserto.
Nção há nada pior do que esfregar a mão cheia de sabão nas roupas,torcer,esfregar,limpar...
Meu cabelo desgranhado,minha cara de morta-viva me fziam pensar "Eu não estou nada diva hoje!"
Mas enfim...depois disso,veio a terceira pior parte: A de limpar a casa.Lá fui eu com a vassoura e o espanador,limpar e encerar os móveios com um tal de oléo de peroba que eu sinceramente pensava que era rpa engraxar sapatos,mas mamãe me explicou que serve pra limpar os móveis.A poeira em cima de mim me fez espirrar horrores e to até agora sentindo o pó no meu nariz! Quye saco! eu realmente queria que mamãe estivesse por aqui!
É mentira. Eu acho mesmo é muito legal fazer tudo isso,por mais que seja cansativo,é um teste de resistencia pra que eu me acostume com a 'rotina comum' da independencia(Morri bem aqui),eu até me senti gente grande! Tá,chega...falando sério,foi até divertido e eu adoro ficar sozinha em casa,sem ninguém pra me perguntar um monte de coisas,sem brigas e stress,sem mamãe querendo conversar quando eu quero estudar,sem barulho,que não seja o som alto que eu coloco!
Eu tenho 20 anos,mas confesso que sei muito pouco dessa vida doméstica.Sei mais sobre Filmes,teorias sociais,Livros existenciais e fenomenológicos do que sobre limpar a casa e etc.
Mas eu sempre quis viver sozinha,sempre me imaginei arrumando minha casa do jeito que eu quero, e mesmo se eu ficar cansada,eu vou achar super legal.
Na verdade,isso vai ser só no começo, depois eu chamo alguém como janaína(a secretária do lar daqui) pra cuidar da casa enquanto eu saio por aí fotografando tudo,ou bagunçando tudo na casa,deixando livros de um lado e café derramado na mesa.
Por que no final,eu sou especialista mesmo é em bagunçar! hahahahahhaha'
Ah! O mais peculiar vem agora: Eu fiz um suco de manga,com uma manga que eu apanhei da mangueira do quinatal daqui.Nunca tinha feito suco de manga e eu adoro,então resolvi fazer.Mechi lá no tal do liquidifcador e tudo o mais. O suco ficou...mais ou menos, nçao ficou bom como o de mamãe porque acho que coloquei muito açúcar,mas mesmo assimtá uma delícia,porque fui eu quem fiz,e vou tentar achar que tá bom. xDDD
Nem sei porque resolvi escrever isso,fazia tempo que não fazia isso aqui de diário,mas a verdade é que eu tinha que registrar esse dia tão pitoresco e diferente da minha rotina normal.Foi legal...mas não é mole meeeeesmo!
Mas,eu não vejo a hora de morar sozinha! [quer dizer,eu e a hóspede,porque tenho medo de monstros noturnos ahsuhaushuahsus]
Chega.Vou tomar meu café requentado. ;***

domingo, 15 de novembro de 2009

A dor sem Memória




Existia,há alguns milhares de quilômetros dali,uma mulher,quase enlouquecida,pertubada em seu próprio sentir,ainda que aparentemente normal.
Era jovem,ainda que se sentisse tão velha.Era doce,ainda que se enxergasse tão amarga.Era na verdade ainda uma garota,que ouvia velhas canções dos anos 80 e lia poesias antes de dormir.
Seus olhos possuíam um brilho estranho,como se a qualquer momento fossem expelir um rio,mas ela sempre os mantinha fortes,imponentes,como ela costumava parecer.
Aquela mulher tinha um Amor.Houve alguém que há tempos a fez sentir algo no qual ela já desacreditava em toda a humanidade,pois,para ela,era difícil sentir a profundidade das pessoas.Conheceu um ser realmente profundo e puro em suas qualidades essenciais.Era este o ser mais belo que já encontrara.Aquele com o qual ela compartilhou seus pensamentos guardados,sonhos,medos,olhares...
Foi então quando ela se sentiu realmente feliz e completa em sua totalidade,quando ela sentiu que nada mais lhe faltava,que nada mais precisava,bastava ouvi-lo,senti-lo,te-lo ali,completamente em sua Alma.
Ela o amava com toda a sua força;Ainda que distante,ela o sentia e vivia tal sentimento mesmo que os medos lhe cortasse, por dentro.Não hesitou verbalizar,pois era tão natural,não hesitou desejar faze-lo sentir o mesmo.Queria faze-lo tão bem quanto ele o fazia e assim buscou fazer...
Ela ouvia a sua voz e se sentia assim como uma criança após ganhar um doce.Poderia fechar os olhos e adormecer feliz,pois sabia que a mais importante alma preenchia a sua vida e habitaria seus sonhos para sempre.Era a única certeza de sua vida,tão feroz e tão evidente em cada pensamento seu.Mal via aquele rosto,pouco sabia de como era fisicamente o seu amor e os seus passos longe dali,porém o sentia tão intensamente,como nunca havia sentido alguém.
Porém,houve um acidente,um desses ferimentos graves em que é difícil estancar o sangue que escorre.Aquele ser solitário do outro lado da linha,aquele nobre ser que unia arrogância e doçura,era tão duro consigo mesmo,e tão sensível paradoxalmente.Ele não conseguia deixar de sentir-se sozinho,não se senti preenchido,não sentia,ainda que quisesse,o desenfrear de seus pensamentos na pureza do sentimento de plenitude.Ele a amava de verdade.Amava seus olhos,seus pensamentos,sua voz,seu ser.mas sentia,dentro de si,que ainda estava sozinho.
Ela lhe entregou o coração,medrosa e verdadeira,sempre esperando o mesmo tom de “Eu Te Amo” ao telefone.Mas temia exigir demais,temia estar fazendo mal,mas simplesmente sabia que não deixaria aquilo que sentia por nada.
E ele sabia que não podia lhe fazer mal e nem queria.Ele entendia o seu sentir,sabia que amava mas sabia da sua própria existência solitária ali.
Então,ele jamais a enganou.Dentre algumas palavras ditas tão sinceras,quando foi rasgada a realidade diante dela, ela então se machucou e pensou que seu Oceano estava transborando enquanto do outro lado,só havia um lago.Ela pensou ser tão boba,pensou que aquele ser jamais entendeu a profundidade do seu amor.Pensou ser enganada por um sonho distante.
Naquela noite,as lágrimas transbordaram,os olhos não se conteram,nem mesmo aquele coração.E ela decidiu apaga-lo de tudo.Resolveu ir embora do mundo daquele ser.E desapareceu.
Há pouco tempo soube que aquela mulher resolveu apagar suas lembranças.A magóa que sentia de ter entregue um amor ao único ser que enxergava verdadeiramente sublime,ultrapassava seus limites de pensamentos e não conseguia viver mais nada que não fosse as lembranças da dor que sentia.
Foi enlouquecendo por dentro,ouvindo a voz do alguém nas vozes de outros,procurando um rosto distante em outros rostos,procurou senti-lo em outros e apenas mutilava-se.
Ninguém jamais tiraria aquilo dela.E ela jamais sentiria o mesmo por alguém,pois afogar-se em Amor,só acontece uma vez.Não há como voltar.
Foi então que aquela jovem mulher decidiu perder a memória.Como num feitiço,numa magia triste,ela desejou nunca mais lembrar.Numa hipnose dos sentidos,ela foi apagando de si,os resquícios da dor eterna.Mudou-se.Mudou as roupas,os sapatos,os discos,os livros...todos jogados em caixas num porão.
E a amnésia da dor completou-se.
Aquela garota de belos cabelos continuou a viver.Acordava todos os dias para sua rotina e agora estudava mais.Queria ser gente ‘normal’,como julgava todos os outros ao seu redor.Sorria pouco,chorava pouco,enxergava pouco e sentia pouco.Era agora vazia como os rostos daquela enorme cidade.
Porém, com o passar dos dias sem a luz do sol,ela percebeu que a dor não se foi.Apenas mudou.
A jovem moça se olhava no espelho e nada conseguia ver,tentava incessantemente lembrar porque seus olhos eram tão tristes.Tentava entender porque havia cortado seu cabelo.Conseguia de longe lembrar que antes eles eram longos.
Num outro dia ela ouviu uma música açucarada que lhe era familiar.A melodia nostálgica,a fez desabar.Não conseguia lembrar o que aquilo significava,mas sentia que significava muito.Dormia angustiada,pois sabia que aquela dor era a pior já sentida.A dor de não ter memórias.Ainda que tivesse desejado aquilo,não sabia porque,porq quem e como,apenas sentia o pesar de seu próprio existir,agora tão vazio,pois apagou as lembranças do sentir a plenitude.
Eu me pergunto então:O que será pior? Esquecer a dor ou sentir a dor do esquecimento? Eu sei que tenho a resposta.O Amor é então o sofrimento mais belo e amar somentte por amar nos faz preenchidos ainda que não possamos preencher um outro espaço.Pode ser triste,mas a verdade é que é doloroso encontrar-se oco,quando já se foi realmente completo e realmente uma existência elevada em essência, diferente do que compreende sentimentos descartáveis.
Aquela mulher agora sofria um pouco mais.Procurava entender o que aquela triste música lhe significava.Buscava naqueles rostos algum traço que reconhecesse,chorava ao ouvir uma voz familiar e não lembrar do que ouvia.Apenas Sofria.Sem mais reconhecer o sentir do amor antigo e a dor antiga.Sofria por tentar ser igual a todos os outros.Sofria por seus pesadelos serem nublados.
Sofria ela por ter desejado apagar lembranças que jamais deixariam de estar ali.Jamais haveria o esquecimento completo do verdadeiro Amor.O sentir desse mesmo é tão complexo quanto a eternidade e os ciclos de uma existência.
A jovem não conseguia ignorar o fato de que sua dor apenas aumentava e a fazia cair,mais a cada dia.O esquecimento da dor nos torna então desfragmentados.Porque apenas aqueles preenchidos de dor são preenchidos de pensamentos,vivencias e do sublime Amar e contemplar o sentir,é esse realmente o conhecimento do sentido do propósito de existir.
Ela então,magoou-se consigo mesma,por sentir-se tão fraca e egoísta em querer jogar fora de si sua própria essência.Desconhecia-se,desconhecia a pureza de seus olhos,as palavras ditas,os sorrisos dados,tudo que lhe fez essencialmente feliz.
Amargurada,ela decidiu matar,não as memórias,mas o seu corpo para ela inútil;Vestiu uma velha calça de uma das caixas jogadas no fundo do armário,calçou um velho tênis e correu para longe dali,onde havia um rio.
Ao chegar ali e ver aquele rio cheio, encheu-se novamente de lágrimas,como em todas as noites e chorou mais do que em todos os dias,doendo existir tão sozinha, pois nem as lembranças tristes a acompanhavam.Eram belos os olhos encharcados da menina,a música de dentro dela, a melodia triste da dor.Ela pos as mãos no bolso como num surto de razão,já mais perto do rio.Encontrou ali,um único papel enrolado.Havia um número de telefone amassado.Ela conhecia aquele número decorado em sua mente,reconheceu cada um e sorriu delirante,porque de repente a lembrança de digita-los lhe apareceu.
Entre as lágrimas nos olhos e o vento na pele,ela logo lembrou da voz ao telefone,e ao olhar os seus pés,viu as letras escritas na borracha do tênis velho,as letras que lhe lembraram um nome,além do seu.Mal conseguia respirar e a dor aumentava a cada espectro de recordação.Lembrou então do porquê gostava tanto daquela música, agora fixa em sua mente.Lembrou de filmes,das conversas e de cenas qu a faziam chorar e chorou ainda mais.
Como se desejasse doer mais um pouco,olhou para o seu próprio rosto nas águas dório,tentando ver em seus olhos e sentir em si mesma aquilo que um dia sentiu.Ali então,aquela mulher enxergou no seu rosto a lembrança do rosto do alguém que ela desejou ter,do alguém que ela sentiu amar.
Não afundou no rio.As memórias jamais estiveram afogadas,ainda que não estivessem na superfície.
As lágrimas angustiadas eram de lembranças que lhe faziam saber quão preenchida era a sua alma.Lembranças que agora,ela desejava guardar para sempre.
“Eu não irei esquecer, e nada irá tirar”
Porque a dor de amar forma a mais bela cicatriz existente no que se chama viver.
Ela então adormeceu ali,sabendo que no outro dia o sol queimaria e iluminaria de novo a sua pele. E então saberia o significado de estar viva.



Calliandra S. Ramos.



[Essa é uma História tida numa cidade longe daqui,quando eu só consegui dormir depois de contemplar tanta tristeza nas luzes dos arranha céus.Pensando...]

Beijos. ;*

domingo, 25 de outubro de 2009

O Gato Preto

Meu conto favorito do Edgar Allan Poe


Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastantedoméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimento me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror - mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotescos. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tornei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto - assim se chamava o gato - era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento -enrubesço ao confessá-lo - sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tornava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim - que outro mal pode se comparar ao álcool? - e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tornara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo.Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão - dissipados já os vapores de minha orgia noturna -, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante, mesmo quando estamos no melhor de nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado - um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo,e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo - coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muita pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.

Logo que vi tal aparição - pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa -, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio.O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto.Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme - tão grande quanto Pluto - e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo - e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse - detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tornando-se logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava.Mas a verdade é que - não sei como nem por quê - seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente -, passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um do olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo - apresso-me a confessá-lo -, pelo pavor extremo que o animal me despertava.

Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar - sim, mesmo nesta cela de criminoso -, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi,e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível - que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa -, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... e, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, da qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável - um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso - encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim - pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros - os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade - e, enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acesso de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca, convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar. O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi mantê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e, tendo depositado ocorpo, com cuidado, de encontro à parede interior, segurei-o nesta posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se poderia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em torno, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante aviolência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite - e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüilo e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia- e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tornaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta aponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair.O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tornar duplamente evidente a minha inocência.

- Senhores - disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada -, é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes - os senhores já se vão? -, estas paredes são de grande solidez.

Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até a parede oposta. Durante uminstante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes. Sobre sua cabeça,com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

[Resolvi postá-lo,pq enfin,ontem estava lendo de novo,e lembrei o quanto eu adoro Allan Poe,e esse é meu conto favorito]

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Ode ao meu dia.

Tudo que é natural é indestrutiével ainda que misterioso.O sol que se põe e a lua que nasce,o bater dos ventos nas folhas,as ondas do mar,a terra...elas nascem e vivem dia após dias com uma força maior e imutável.algo que é eterno e cheio de essencia.A natureza é por si só dona de si,um cosmo além de tudo que é material, que é firme,incessante,enigmático e eterno em sua magnitude.
Sentimentos verdadeiros são naturais,transcendentes,surreais...vão além do espaço físico das efemeridades desse mundo que é digitalizado em cada sorriso,cada passo,cada rosto.
sentir,ter fé no que se é e buscar ir além das normalidades é o que há de mais belo no cosmo.
e é indestrutivel,incessante,interminável.Como o vento que tocas nas folhas,vai e volta e está todos os dias fazendo-as dançarem,
como a profundidade do azul mesclando com as nuvens,
como a chuva que cai,como a dos olhos que enxergam a própria essencia em outros olhos.
Eu jamais acordarei desse cosmo que é o meu.

Coomo diria meu outro eu, ao enxergar-se nesse cosmo que é só seu e do seu eu-complemento,nada mais no mundo importa,nenhuma efemeridade,nenhum sentimento pequeno,porque tudo é menor e tudo está embaixo do sentir a alma preenchida.

[Hoje é 8 de setembro.8 é infinito. ;)]
[a foto é minha, se roubarem,me creditem.]

=***

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A leitura da existência.



Resolvi aqui escrever sobre uma breve conversa infantil,que eu guardo com carinho.Outro dia, eu lembrei novamente dela, e então resolvi guardá-la como verdade para mim,pois eu estava ali,sentada naquela locomotiva,pensando o quanto todas aquelas palavras faziam sentido.'Voce tem sorte por preencher sua existencia'-Ela disse.Ler o existir,é então dar sentido a essência.
Há uns anos atrás eu ouvi de minha sábia vó uma parabóla que eu jamais esqueci.Sei que foi criada dela para mim,pois senti aquelas palavras sendo espontaneas,depois de eu ter perguntado simploriamente
'o que seria do mundo sem livros,mamazita?'Logo após ter assistido meu filme preferido do Truffaut.E sim,se minha memória não falha eu deveria ter meus 9 anos.
'O mundo seria vazio,porque os livros são como almas...eles guardam segredos e uma essencia que toca aqueles que leem, e enchem de significado e compleentam a alma de quem entende suas palavras.
Cada livro,cada página,desses livros de variadas literaturas significam algo, para alguém...por isso são tão importantes,por isso gosto tanto deles'
'então,almas também são livros?'-eu perguntei.
'E é, é isso mesmo,minha filha.Pensando assim,almas são como livros...
possuem signficados diferentes e variados e tocam de maneiras diferentes seus leitores,
algumas almas são como livros de receitas fáceis, outras são tão complexas e cheias de páginas dificeis de serem lidas,
outras guardam segredos...
Mas há de se dizer, que deve existir livros vazios,
e há de se dizer também que existem livros misteriosos e preciosos por aí,cheios de simbologia, e com um alfabeto, só encontrado em outro livro,outra alma que é livro e é leitor,apenas ela talvez possa entender,e sentir cada palavra,e assim ter sentido'
Foram mais ou menos essas as palavras,porque não consigo recordá-las exatamente.
E eu guardei aquilo na minha mente.
Passou-se o tempo,e eu venho lendo muito.Algumas literaturas são extremamente vazias e pouco interessantes pra mim. E eu me cansei das fórmulas simples,
vi livros com páginas em brancos,e na verdade pouco vi de livros que me emocionassem.Esses livros-alma que eu falei com a vovó.
Mas eu tenho que dizer a ela,que é realmente verdade,e que eu descobri o meu livro há um tempo atrás quando ele chegou na minha casa de repente...
Esse meu livro é o mais bonito, ele tem as letras tão pequeninas e gravuras tão surrealistas que a princípio eu deveria cerrar meus olhos pra conseguir ler, realmente era difícil no começo, ler,porque as letras eram peqeunas e as metáforas e mensagens subliminares estavam em toda página.
As pessoas realmente o veem como belo, algumas tentam le-lo ainda que não entendam seus simbolos e não possuam capacidade sensivel para entender o que há de trás de suas palavras,
'é inútil-porque seu alfabeto é desconhecido'-alguns poderiam dizer
'é um livro estranho'-cheguei a ouvir.
e por isso,todos aqueles ao redor nunca conseguiam ler a beleza das palavras por trás daquela cama infinitamente misteriosa.
Mas eu entendia e sentia que aquilo estava em mim,e me completava.
Todas aquelas palavras eram minhas,eram feitas para mim, como na parabóla que a vovó criou e que eu completei,pois eu acreditava que havia algo de mistério,pois para mim,alguns livros eram feitos especialmente para alguns seres,também livros.
Na realidade, eu fui descobrindo que aquele idioma não era falado por ninguém e eu compreendia perfeitamente,
ninguém entendia seus signos,aquela linguagem era extremamente complexa,mas eu a sentia e lia com a maior facilidade vinda de dentro de mim.
o conteúdo me trazia admiração e lágrimas emotivas,porque eu realmente tinha encontrado as palavras doces da minha vida.
Livros com letras pequeninas são os que possuem mais conteúdo,e o meu é raro,único,e só meu,porque eu descobri que só eu mesma consigo entende-lo completamente.
E sobre as gravuras,e as letras míudas, bem são as mais belas que eu já encontrei.
não cerro mais meus olhos, e leio esse livro todos os dias,com meus olhos brilhando.
Seu prefácio e sua capa são realmente atratentes e muitos por aí talvez já tenham tentado ler,outros apenas querem,mas ele foi me dado de presente, e agora eu cuido e guardo dele como meu bem mais precioso.
Descobri então,que eu também sou feita de palavras, trechos de letras pequeninas,gravuras surreais e sonhos desenhados,tudo num único exemplar,complementado por este outro que me pertence,e que é alma, e que me Lê tão facilmente,ainda que os símbolos sejam misteriosos e o alfabeto desconhecido também,para todos os outros.

(L)

Calliandra S.Ramos.Que adora livros e histórias em quadrinhos e lê até bula de remédio.Gralças a vovó Maria,que dá livros para ela desde quando se alfabetizou =)

[Quadro: Leitura-Renoir] :***

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Lira e ode dos 20 anos.[de uma boneca consertada]



'Feliz aniversário',ouvia incessante dentro de mim.
Cinzas jogadas pelo chão,
enquanto eu jazida no mesmo
nada mais conseguia enxergar
apenas o medo dilacerando em mim
os sonhos pertubados pelas angústias de todos esses anos
ainda tocando a fúnebre sinfonia das batidas desse coração machucado...
As feridas abertas tentando corroer todo aquele amor que eu profundamente sentia
Eu não conseguia apagar as magóas em mim
E não conseguia levantar-me dali,por horas...
Fazia alguns dias que as duas décadas de existir haviam se completado,
e como num espetáculo tétrico de viver,
estavam todos os pedaçoes meus jogados.
"Quem sou eu?" ecoando na cabeça... e as certezas misturadas aos pensamentos vis.
Como nos enredos de neil gaiman,
eu era uma das personagens esquecidas num mundo longe da realidade vazia,
Nuvens de algodão doce,rios de suco de laranja,duendes e bonecas qubradas ao redor,
devaneios, e o desejo de sempre entender o 'real'.
A dor de entender os sentimentos, a dor de sentir e enxergar.
Os olhos profundos que buscavam sempre enxergar as almas ao seu redor...
e quando as via,tão profundamente, caía e desanimava-se, ao ver o quanto vazias se tornavam,
ou ao ver todo o sofrimento que tentavam esconder por baixo dos panos.
A garota dos sonhos prateados,
que adorava brinquedos e cores, histórias e contos de horror,
Os cabelos enrolados e muito negros que juntavam-se a uma face juvenil[ que ela não gostava], e seus olhos fundos e corpo pequeno,pareciam traduzir uma alma de coração infantil-por ainda guardar pureza e sinceridade a olho nu.
ainda que madura-por buscar compreender tudo que seus olhos enxergavam.
A sua maquiagem tradicional inspirada no ultraromantismo não a deixava disfarçar suas angústias do passado,ainda que tentasse.
As felicidades de quinze minutos não lhe fariam esquecer a dor que deveras sentia por 'viver' no mundo que não é o seu.
Se perguntava o tempo todo o que fazia ali, e então se fechava na dimensão que era só dela.
Porém,não era vazia, era sim preenchida de si,de idéias, e de sentimentos que a faziam sentir-se feliz no meio da tristeza ddaquele mundo de sucatas humanas.
Em seu mundo,haviam as anestezias,que esta buscava cuidadosamente no 'mundo real',pra sentir-se na euforia daquele mesmo,ainda que cada devaneio ,desejo e sentimento a fizesse a cada dia porta-retrato surreal.
Um passarinho amarelo que desejava voar e ser livre,encontrando vida e histórias rpa contar.
Um personagem de um quadro bastrato e impressionista,tão indecifrável e enigmático para cada apreciador,ainda que pudessem sentir sua beleza,naquela harmonia de cores.
É verdade que todos gostavam das cores vívidas desse quadro,mas pouco entendiam sua figura.
havia um,somente, que a sentia mais que qualquer outro,levou a pintura para ele,pois para ele foi feita,e só dele era.
Ela temia perder seu maior sonho,seu devaneio de amar: O único habitante de seu mundo interior era o que a completava e fazia sua existencia ter sentido.
Queria aquilo para sempre.Jamais sentiu-se tão necessitada de algo,como daquele astro cadente que apareceu na sua noite escura.
Seus medos agoram traduziam-se em jamais desvanecer aquele amor, e todos eles lhe davam força no final e certeza da fé que sentia. Sempre falva isso,e semrpe se repetia,porque é sua maior verdade.
Era doce e e puro drama,a menina, apesar da acidez de suas palavras muitas vezes...
Ama histórias trágicas e o romantismo dos filmes antigos
Era um ser musical,que vez e outra cantarolava entre campos desconhecidos.
Gostava de passear de bicicleta de olhos fechados,
amava dias chuvosos e frio,
e fotografava olhares,ores,fantasia.
É ee sempre vai ser ímpar,
com idéias e desejos assim singulares.
E eram 20 anos de devaneios numa caixa mágica,com histórias belas e tristes,
sempre existenciais
sempre cheias de 'realmente viver'
smepre preenchidas de significados realmente importantes.
Eu,que ainda não consegui me levantar desse chão,
olho para esse meu eu,diante do espelho,onde lágrimas transbordam medos,expectativas,amor e dor.
Quando eu sei exatamente o quão complexo é 'estar existindo na compreensão de existir'
E o complexo é assim completo.
Sei agora o quanto a menina pequena.
a boneca quebrada,
o passarinho amarelo de asas feridas
o quanto eu mesma cresci e voei,e tenho voado em busca de sr livre e continuar a viver tais complexidades de existir e sonhar.
Sei o quanto essa pequena garota cresceu,e cada boa lembrança ecoa nos sentidos,fazendo essas lágrimas não serem exatamente tristes.
E as dolorosas lembranças me fazendo sempre aprender e ter forças para não desistir do sonhar.
E minha preciosidade surreal-O amor tão bem guardado-faz me desejar eterniza-lo a cada dia que passa.
Apaguei as velas dos 20 anos,num sonho,desejando jamais perder essa fé que me guia nesse mundo que é só meu.
E por todos os anos,meu desejo de aniversário[continuos e diários] será apenas um.
E enquanto no mundo real,todas as pessoas ainda são tão vazias,
estou preenchida de mim,nesses delírios e canções de ninar,e pensamentos pitorescos que chegam antes da meia noite...
Sonhar me faz mais sentido que viver,
torn-alos real dá significado a essa vida.

[Para mim e de dentro de mim,pelos '20 aninhos' completados xD]
[perdoem-me os erros,guys!]
[ah,esse é meu quadro favorito do waterhouse,cs sabem o quanto ele comanda aqui né? se chama 'Juliet',e não sei porque,me vejo muito nele *-*]

;*

domingo, 5 de julho de 2009

A boneca quebrada.



Ela era de todas a mais reluzente das bonecas.Seu belo vestido preto e vermelho,seus olhos e seu cabelo,com todas as rosas de prata desenhadas nos botões de sua roupa eram a mais extrema perfeição.
O criado tinha desenhado o mais belo sorriso,ainda que excentrico e diferente de todos os outros.
E todos a queriam e a amavam de longrr,enquanto ela se mostrava tão doce e bela naquela vitrine.
Entretanto,cada vez que alguém decidia comprá-la,e te-la para si,logo depravam-se com seu corpinho quebrado e defeitos internos só vistos de perto e por baixo do vestido.
Ela era uma bonequinha quebrada da rara coleção de bonecas perfeitas e uma parte do seu corpo,estava faltando.
Seu defeito escondido era o que fazia todos desistirem de amá-la totalmente e de le´´a-la para casa: Faltava-lhe um coração bonito e reluzente,sem feridas.Não havia o vazio,mas havia um coração quebrado e amssado ali.
A mais bela boneca da vitirne ficava ali esquecida e quebrada,seus defeitos ferindo dentro de sua vestimenta brilhante.
E era sempre a mesma coisa: Ninguém queria um brinquedo torto e vleho,por mais belo que fosse.
Então chegou alguém, o Alguém que a algum tempo a admirava na vitirne e tão bonito achava o sorriso daquela.Pegou-a e sentiu-a em suas próprias mãos,sentiu o coração defeituoso.
E foi como uma caridade.Aquele alguém a levou para casa e cuidou dela,brincou com ela e a amaou desde o pricípio,mesmo que lhe faltasse a perfeição aparente.Guardava-a sempre em sua caixinha desnehada e a olhava com olhos de quem ama profundamente,fazendo-a se sentir perfeita de verdade ali.
Mesmo que no meio dos sonhos da boneca ela soubesse que aquele alguém poderia estar fazendo aquilo simplesmente por piedade da perfeição esquecida na prateleira com seu coração amassado.
Mas não,a verdade é que aquele alguém realmente a amava de verdade, não apenas por seu sorrio reluzente mas por saber o quanto aquela bonequinha gostaria de ser perfeita de verdade para alguém,muito além de sua aparencia, muito além de seus olhos...
Aquele alguém,não sei como,lhe deu um novo coração,que agora pulsava vivo,brilhava de verdade e fazia sumir a tristeza do sorriso daquela menina defeituosa.Haviam ainda as ataduras em seu peito mas nada daquilo importava para aquele alguém que tanto a desejou ter e que tanto a ama.
E tudo que aquela boneca queria era faze-lo feliz todos os dias, habitar os sonhos mais bonitos dele que era o seu verdadeiro criador.Havia lhe dado um coração e sua cura é o que realmente lhe importava.
A perfeição talvez não esteja na falta de defeitos-pensou a bonequinha,mas no desejo de ser plenitude e harmonia a si e a alguém.E de ter a pureza verdadeira em cada olhar.
Aquele alguém a salvou de definhar nas prateleiras,enquanto ela lhe entregou o mais perfeito sorriso e lhe deu toda a alegria,quando ele não mais acreditava na pureza e na 'fé' de todos que lhe rodeavam.Ela não era humana,realmente.E ele não mais acreditava na humanidade.

"No final,sou eu e voce e nada mais importa.
Lembre-se disso,bonequinha".


[Inspirada nas histórias infantis de bonecas quebradas,na imaginação e no interior,e no anime rozen maiden hahaha']
[Arte por Mark Ryden]

=*

segunda-feira, 15 de junho de 2009

kooks.



The kooks é uma banda Inglesa do rótulo-modinha-cult Indie Rock, foi formada em 2004 e tem dois albúns: Inside In/Inside Out e Konk e tem ganhado muita notoriedade no mundo inteiro.Conheci em 2007 quando tava procurando por um albúm do Strokes num blog de downloads fáceis,mas não atentei tanto e essa semana peguei o 'Konk' pra ouvir.
Aqui no Brasil ficaram mais famosinhos quandoo clip de naïve passou na MTV, pra variar, o que acontece cm todas as bandinhas alternativas da atualidade.
Tá tirando o nada original título de indie rock[eu sei que eu gosto de muuuitas bandas que levam esse título e tudo mais],The kooks é uma banda que realmente me agrada:Os caras fazem músicas divertidas,roquinhos leves,outras musiquinhas mais pop'mas ainda assim boas demais que grudam na cabeça e outras músicas mais bem trabalhadas com influencias diferentes e elementos de ouros estilos.
São do reino Unido, e isso já faz deles um atrativo pra mim. eu adoro!
São originais, vocalista tem uma boa voz, eu gosto das guitaras,das levadinhas rock moderninho e as letras são legais também.
Não é nada de muito profundo,nada de muito excentrico e diferente.
mas as vezes tudo que se precisa são letras simples que falem de amor e tudo o mais.

The Kooks é bom demais e eu garanto.
Se quiserem saber mais,podem ir na wikipédia, you tube,comunidade do orkut, last fm e tudo o mais, Hoje em dia tudo se acha em qualquer lugar.
só não 'The aniversary' [oh bandinha dificil...]

Então é isso. essa é minha dica musical. Meu vício musical da semana. =)

Beijos. tchau.

The Kooks - She Moves In Her Own Way

So at my show on Monday
I was hoping someday
You'd be on your way to better things
It's not about your make-up
Or how you try to shape up
To these tiresome paper dreams
Paper dreams honey

So now you pour your heart out
You're telling me you're far out
But not about to lie down for your cause
But you don't pull my strings
Cause I'm a better man
Moving on to better things

But uh oh, I love her because
She moves in her own way
But uh oh, she came to my show
Just to hear about my day

And at the show on Tuesday
She was in her mind see
Tempered firs and spangled boots
Looks are deceiving
Making me believe it
And these tiresome paper dreams
Paper dreams honey, yeah

So won't you go far
Tell me you're a keeper
Not about to lie down for your cause
But you don't pull my strings
Cause I'm a better man
Moving on to better things

But uh oh, I love her because
She moves in her own way
But uh oh, she came to my show
Just to hear about my day

Yes I wish that we never made it
Through all the summers
And kept them up instead of
Kicking us back down to the suburbs
Yes I wish that we never made it
Through all the summers
And kept them up instead of
Kicking us back down to the suburbs

But uh oh, I love her because
She moves in her own way
But uh oh, she came to my show
Just to hear about my day

But uh oh, I love her because
She moves in her own way
But uh oh, she came to my show
Just to hear about my day